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Clima tropical e sol frequente aumentam desgaste da pele e risco de lesões ao longo do tempo

Tocantins registrou mais de 600 diagnósticos de câncer de pele em cinco anos; dermatologistas alertam que manchas e fotoenvelhecimento também resultam de exposição prolongada e exigem tratamento especializado

Entre 2020 e 2025, o Tocantins somou 608 novos diagnósticos de câncer de pele e 118 mortes pela doença
Foto: Freepik

Uma mancha escura na maçã do rosto. Um tom desigual que aparece depois dos 30 anos sem que a pessoa lembre de ter se queimado. Uma textura áspera nas mãos que nenhum creme resolve. No Tocantins, onde o sol castiga a pele durante praticamente todos os meses do ano, esses sinais são mais comuns do que a maioria imagina.

Dados do Painel de Oncologia do Ministério da Saúde mostram que, entre 2020 e 2025, o estado somou 608 novos diagnósticos de câncer de pele e 118 mortes pela doença. O número chama a atenção por se tratar de um tipo de câncer altamente prevenível. Mas o problema não se resume ao câncer.

A radiação ultravioleta acumulada ao longo dos anos é responsável também por manchas, melasma, perda de colágeno, sardas persistentes e envelhecimento precoce, condições que afetam milhões de brasileiros e que, até pouco tempo, tinham opções limitadas de tratamento.

O avanço das tecnologias dermatológicas mudou esse cenário. Equipamentos de última geração permitem hoje tratar lesões pigmentadas, cicatrizes e sinais de fotoenvelhecimento com precisão e segurança que não existiam há uma década.

O que antes exigia procedimentos agressivos, com longo período de recuperação, hoje pode ser feito em sessões rápidas, sem afastar o paciente da rotina.

A radiação que o Tocantins recebe e o efeito silencioso na pele

O Tocantins está localizado em uma faixa geográfica de alta incidência solar. Temperaturas elevadas, céu aberto durante a maior parte do ano e uma população com forte presença de trabalhadores rurais, da construção civil e do comércio ao ar livre compõem um cenário de exposição constante à radiação UV.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) classifica o câncer de pele não melanoma como o tumor mais frequente no Brasil, correspondendo a cerca de 30% de todos os tumores malignos registrados no país. O problema é que boa parte da população ainda trata a queimadura solar como algo banal.

Conforme a oncologista Marina Vasco, que atua no Tocantins, existe uma naturalização do dano solar no estado. Cada vermelhidão na pele, cada ardência após um dia de trabalho sob o sol, representa um dano celular que se acumula ao longo de décadas.

Esse acúmulo não se traduz apenas em risco de câncer. A radiação ultravioleta danifica o DNA das células cutâneas e degrada as fibras de colágeno e elastina que sustentam a estrutura da pele.

O resultado, anos depois, são rugas profundas, flacidez, manchas acastanhadas, melanoses solares e uma textura irregular que envelhece a aparência muito além da idade real.

Manchas na pele e melasma: um problema que vai além da estética

Entre as consequências mais visíveis do sol acumulado estão as manchas cutâneas. O melasma, caracterizado por manchas acastanhadas e escurecidas que surgem principalmente no rosto, é uma das condições dermatológicas mais frequentes entre mulheres brasileiras.

Estima-se que atinja cerca de 35% da população feminina no país, segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Um estudo recente da Universidade Estadual Paulista (UNESP), publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia, encontrou prevalência de 36,3% em mulheres adultas avaliadas por exame clínico.

O melasma não é apenas um incômodo estético. Pesquisas mostram associação entre a condição e impactos na qualidade de vida, incluindo redução da autoestima e evitação de situações sociais.

Em regiões com radiação solar intensa durante o ano inteiro, como o norte do Tocantins, o controle se torna ainda mais difícil. A exposição constante reativa os melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, e faz com que as manchas retornem mesmo após tratamento.

Além do melasma, melanoses solares, sardas persistentes e hiperpigmentações pós-inflamatórias compõem um quadro que afeta homens e mulheres de diferentes fototipos.

A clínica dermatológica lida diariamente com pacientes que conviveram com manchas por anos antes de procurar ajuda, muitas vezes porque desconheciam que havia opções de tratamento além dos cremes clareadores tradicionais.

O crescimento dos procedimentos não cirúrgicos e a demanda por tecnologia

O Brasil é o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo e ocupa a segunda posição global em procedimentos estéticos não cirúrgicos, atrás apenas dos Estados Unidos.

Relatório da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), divulgado em 2025, indica que o volume total de procedimentos estéticos no mundo cresceu 42,5% entre 2020 e 2024, alcançando mais de 17,4 milhões de intervenções cirúrgicas e cerca de 20,5 milhões de procedimentos não cirúrgicos.

A tendência reflete uma mudança de comportamento. O paciente que antes recorria ao dermatologista apenas diante de sintomas graves agora busca tratamentos preventivos e corretivos com menor tempo de recuperação.

Dentro desse movimento, os lasers dermatológicos ganharam espaço como ferramentas capazes de tratar manchas, cicatrizes de acne, rugas e lesões pigmentadas sem afastar a pessoa das atividades do dia a dia.

O setor de estética brasileiro, que já é o terceiro maior mercado global, tem projeção de faturamento de US$ 41,6 bilhões até 2028, conforme levantamento da consultoria Mordor Intelligence.

O crescimento é impulsionado pela valorização do autocuidado, pelo acesso a novas tecnologias e pelo aumento da oferta de procedimentos que combinam resultados consistentes com segurança.

Como os lasers de última geração tratam os danos do sol

Nem toda tecnologia a laser funciona da mesma forma. Os equipamentos convencionais, que emitem pulsos em nanossegundos, atuam sobre pigmentos localizados na pele, mas geram calor que pode provocar desconforto e exigir dias de recuperação.

A evolução tecnológica trouxe uma classe de lasers que opera em velocidade muito superior, com pulsos medidos em trilionésimos de segundo.

laser picossegundos é um exemplo dessa nova geração. Sua tecnologia emite pulsos ultracurtos que fragmentam o pigmento responsável pelas manchas em partículas muito pequenas, absorvidas naturalmente pelo organismo.

Como o tempo de contato com a pele é extremamente reduzido, o tecido saudável ao redor da lesão não é afetado. Isso diminui o risco de queimaduras, reduz o desconforto e encurta o período de recuperação.

Estudo publicado no periódico Dermatologic Surgery apontou o laser de picossegundos como a tecnologia com maior eficácia no tratamento do melasma, especialmente quando combinado ao uso de ácido tranexâmico oral. Os resultados mostraram redução significativa da pigmentação, com necessidade de menos sessões em comparação a métodos anteriores.

Além do melasma, o equipamento é indicado para melanoses solares, cicatrizes de acne, rejuvenescimento da textura cutânea e remoção de tatuagens.

O mecanismo de ação, baseado em efeito fotoacuústico e não em calor, também estimula a produção de novo colágeno e elastina, o que melhora a firmeza e a uniformidade da pele ao longo das sessões.

O que muda para o paciente que vive em regiões de alta radiação

Para quem mora em estados como o Tocantins, Goiás, Mato Grosso ou qualquer região do Centro-Oeste e Norte com alta incidência solar, o cuidado com a pele exige atenção redobrada.

A radiação UV não age apenas nos dias de praia ou lazer. Ela está presente no trajeto de casa ao trabalho, durante o exercício ao ar livre, nas atividades do campo e até dentro do carro, já que os raios UVA atravessam vidros comuns.

A Secretaria de Saúde do Tocantins recomenda uso diário de protetor solar FPS 30 ou superior, roupas de proteção, chapéu e óculos com filtro UV. Na prática, a adesão a essas medidas ainda é baixa.

Muitas pessoas continuam associando o protetor solar ao ambiente de praia, sem incorporá-lo na rotina diária. O resultado é um acúmulo de danos que se manifesta de forma silenciosa.

Quando as manchas já estão instaladas, o tratamento precisa ir além dos cosméticos convencionais. Cremes clareadores com hidroquinona, ácido kójico ou tretinoina têm papel no controle, mas não atingem pigmentos mais profundos.

Nesses casos, a avaliação com um dermatologista permite identificar o tipo de lesão, a profundidade do pigmento e a melhor estratégia terapêutica, que pode incluir peelings, lasers ou a combinação de métodos.

O papel do dermatologista na escolha do tratamento

A oferta de procedimentos estéticos cresceu junto com a demanda, e isso trouxe um efeito colateral: a proliferação de clínicas e profissionais sem a formação adequada para operar equipamentos de alta complexidade.

Dados do Instituto Municipal de Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro indicam que, entre 2021 e 2023, as interdições de estabelecimentos clandestinos de estética aumentaram 600%.

O dermatologista é o médico especializado no diagnóstico e tratamento de doenças da pele, dos cabelos e das unhas. Quando se trata de procedimentos com laser, a formação específica faz diferença tanto na segurança quanto no resultado.

"A escolha do comprimento de onda, da potência, do número de passes e do intervalo entre sessões depende de uma avaliação clínica individualizada que leva em conta o fototipo da pele, o tipo de mancha, o histórico de exposição solar e o uso de medicamentos", acrescentou Dra. Mariana Cabral, dermatologista com atuação em Goiânia (GO).

Em estados com radiação solar intensa, essa avaliação tem um peso ainda maior. O risco de hiperpigmentação pós-inflamatória, por exemplo, aumenta em pacientes com fototipos mais altos, que são comuns na população brasileira.

Um protocolo mal calibrado pode piorar o quadro em vez de tratá-lo. A escolha do profissional, portanto, não é um detalhe. É parte do tratamento.

Prevenção e tratamento caminham juntos

Os 608 diagnósticos de câncer de pele registrados no Tocantins entre 2020 e 2025 são um alerta que não se restringe ao câncer. Eles indicam que a população do estado convive com níveis de radiação solar que comprometem a saúde da pele de diversas formas, das mais graves às aparentemente inofensivas.

O Inquérito Epidemiológico da SBD, divulgado em 2024, mapeou os principais diagnósticos realizados por dermatologistas no Brasil e confirmou que condições como acne, psoríase e neoplasias de pele seguem entre as queixas mais frequentes. O cuidado com a pele, portanto, não é um assunto restrito à cosmética. É uma questão de saúde pública.

Incluir o protetor solar na rotina, observar alterações em pintas e manchas e procurar um dermatologista ao perceber qualquer mudança na pele são ações simples que reduzem riscos.

Para quem já convive com manchas instaladas, o acesso a tecnologias avançadas como o laser de picossegundos representa uma possibilidade real de tratamento, com resultados que avançam a cada sessão e com um nível de segurança que os métodos antigos não ofereciam.

O sol do Tocantins não vai mudar. Os hábitos de proteção e o acesso à informação, sim. E quando a prevenção não chega a tempo, saber que existem tratamentos eficazes e seguros faz diferença entre conviver com o dano ou tratá-lo.