Notícias

Do "lucro fácil" ao impacto familiar: bets e "Tigrinho" expõem urgência da educação financeira no Brasil

Por trás da promessa de enriquecimento rápido, bets e "Tigrinho" viciam jovens, destroem famílias e escancaram a necessidade urgente de educação financeira nas escolas brasileiras

Especialistas alertam que a dependência começa silenciosamente e pode levar ao endividamento, isolamento e abandono dos estudos.
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Uma epidemia silenciosa avança pelo Brasil e atinge em cheio os brasileiros: o vício em apostas online. Com publicidade massiva, celebridades promovendo plataformas e a promessa de enriquecimento imediato, as chamadas “bets” e outros formatos de apostas, como o famoso “Tigrinho”, transformaram-se em um fenômeno social que causa prejuízos econômicos, emocionais e educacionais profundos.

Esse problema ocorre principalmente entre adolescentes e jovens adultos, mais especificamente em comunidades de baixa renda, o cenário é alarmante. De acordo com uma pesquisa do Unicef, 22% dos adolescentes entrevistados disseram ter apostado pela primeira vez até os 11 anos de idade. O acesso fácil e a ausência de fiscalização permitem que menores de idade burlem sistemas usando CPFs falsos, mergulhando precocemente em um ciclo de risco.

A dinâmica das apostas online age diretamente no sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, o mesmo neurotransmissor ativado pelo consumo de álcool ou drogas. Isso gera uma sensação temporária de prazer e excitação que, com o tempo, exige estímulos cada vez mais intensos.

O resultado é o desenvolvimento de uma compulsão com efeitos colaterais devastadores: ansiedade, irritabilidade, isolamento, queda no desempenho escolar, abandono dos estudos e, em muitos casos, envolvimento com dívidas e crimes.

“A pessoa sempre acha que pode parar, mesmo quando já está trocando atividades essenciais por um comportamento doentio”, explica Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN). Segundo ele, a compulsão pelo jogo é um dos vícios mais silenciosos e destrutivos da atualidade.

A falsa promessa do lucro fácil

Grande parte dos apostadores é seduzida por influenciadores digitais e propagandas que apresentam o jogo como um “estilo de vida” de sucesso. “O apelo comercial das apostas é especialmente perigoso para quem está em situação de vulnerabilidade financeira. Isso alimenta uma ilusão de que existe um caminho curto para sair da pobreza, e esse caminho simplesmente não existe”, afirma Domingos.

O vício em apostas não afeta apenas o jogador. Famílias inteiras são arrastadas para o colapso emocional e financeiro. São frequentes os relatos de casamentos destruídos, endividamento conjunto, filhos emocionalmente negligenciados e até notícias assustadoras como de perdas patrimoniais de mais de R$ 200 mil.

Além disso, o ambiente escolar tem sido diretamente impactado. Professores relatam casos de alunos que dormem nas aulas após noites inteiras apostando, outros que abandonam os estudos ou demonstram comportamento agressivo ao serem impedidos de usar o celular. A escola deixa de ser um espaço de construção de futuro e passa a ser vista como obstáculo à “vida de apostador”.

O papel urgente da educação do comportamento financeiro

Diante desse cenário, a única solução duradoura é formar cidadãos capazes de entender a lógica do dinheiro e resistir às armadilhas do consumo ilusório. Para isso, especialistas defendem a inclusão urgente e estruturada da educação do comportamento financeiro nas escolas, desde o ensino fundamental.

“Não adianta apenas ensinar a fazer contas ou falar de juros compostos. Precisamos trabalhar a relação emocional que os jovens têm com o dinheiro, mostrar que ele é um meio, e não um fim. Isso muda a forma como eles tomam decisões”, destaca Reinaldo Domingos.

A educação do comportamento financeiro precisa tratar de pilares como o desenvolvimento de consciência sobre desejos e impulsos; reflexão sobre metas e valores pessoais e; aprendizado sobre planejar com base em propósito e não em ansiedade por consumo.

“Esse problema não será resolvido apenas com fiscalização ou proibição. Ele só será enfrentado de verdade quando a sociedade enxergar que formar cidadãos financeiramente conscientes é uma responsabilidade coletiva, e que a escola tem papel central nisso”, finaliza Domingos.

O vício em apostas está destruindo sonhos, famílias e carreiras antes mesmo que comecem. Enquanto a propaganda do lucro fácil seduz, a realidade é de perda, frustração e sofrimento. A única aposta segura que o Brasil pode fazer agora é na educação do comportamento financeiro, e ela precisa começar o quanto antes.