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Gordura no fígado atinge um em cada três adultos no Brasil

Doença silenciosa avança sem sintomas e pode levar a quadros graves como cirrose e câncer hepático; diagnóstico tardio é a regra, não a exceção.

Estima-se que entre 30% e 35% dos adultos brasileiros convivam com algum grau de esteatose hepática
Foto: Freepik

Maria de Lourdes, 54 anos, moradora de Araguaína, descobriu que tinha gordura acumulada no fígado durante um ultrassom de rotina. Não sentia dor, não tinha febre, não apresentava nenhum sinal visível de que algo ia mal.

O exame, pedido por conta de uma queixa digestiva comum, revelou esteatose hepática grau 2. O médico explicou: o fígado dela já estava inflamado, e sem mudanças sérias nos hábitos, o quadro poderia evoluir para fibrose. "Eu nem sabia que existia gordura no fígado", disse na consulta.

A história de Maria de Lourdes poderia ser a de qualquer pessoa. Estima-se que entre 30% e 35% dos adultos brasileiros convivam com algum grau de esteatose hepática, segundo dados da Sociedade Brasileira de Hepatologia.

No mundo, a prevalência da forma não alcoólica saltou de 25% na década de 1990 para cerca de 38% entre 2016 e 2019, conforme levantamento publicado na revista científica Hepatology. É uma condição que cresce junto com a obesidade, o sedentarismo e a alimentação baseada em ultraprocessados.

O problema é que a maioria das pessoas afetadas desconhece o próprio diagnóstico. Uma pesquisa Datafolha mostrou que 62% dos brasileiros se dizem preocupados com a gordura no fígado, mas apenas 7% receberam diagnóstico médico.

A diferença entre esses dois números resume bem o tamanho do desafio: a preocupação existe, o acesso ao diagnóstico, nem tanto.

O fígado adoece em silêncio

Conforme explicação de um médico especialista em fígado em Goiânia, o fígado é o maior órgão sólido do corpo humano e executa mais de 500 funções, entre elas filtrar toxinas do sangue, metabolizar nutrientes e produzir proteínas necessárias à coagulação.

É também um órgão com alta capacidade de regeneração, o que parece vantagem, mas acaba se tornando armadilha. Como ele se recupera de agressões repetidas sem dar sinais claros de sofrimento, muitos pacientes só percebem que há algo errado quando a doença já avançou.

A progressão costuma seguir um caminho previsível: começa com o acúmulo de gordura, passa por inflamação (esteato-hepatite), evolui para fibrose, depois cirrose e, nos casos mais graves, câncer hepático. Esse processo pode levar anos ou décadas, e durante boa parte do percurso o paciente não sente nada.

Dados do DATASUS analisados por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em estudo publicado na revista The Lancet Regional Health Americas, revelaram que doenças hepáticas são responsáveis por 3% de todos os óbitos registrados no Brasil entre 1996 e 2022. Uma em cada 33 mortes no país teve como causa alguma doença do fígado.

O governo federal gasta cerca de R$ 300 milhões por ano apenas com o tratamento dessas enfermidades, e a maior fatia, 68% do total, vai para transplantes hepáticos, que representam o estágio final do tratamento.

Na região Norte, o cenário tem particularidades que agravam o quadro

O estudo da UFMG também identificou que o perfil das doenças hepáticas muda conforme a região do país. No Nordeste, a principal causa de morte por doença do fígado é a hepatopatia alcoólica. No Norte e no Sul, o câncer hepático lidera as estatísticas.

A região Norte enfrenta, além disso, dificuldades estruturais que tornam o diagnóstico precoce ainda mais raro. O Tocantins, por exemplo, é um estado jovem, com 139 municípios, dos quais mais de 92% têm menos de 20 mil habitantes.

A rede de atendimento especializado em hepatologia está concentrada nas capitais e em grandes centros, o que obriga pacientes de cidades menores a se deslocarem para ter acesso a exames e consultas que poderiam detectar a doença ainda em fase inicial.

Araguaína, como principal polo de saúde do norte do estado, recebe pacientes de dezenas de municípios da região e até de cidades do sul do Pará e do Maranhão.

O Hospital Regional de Araguaína (HRA) registrou mais de 41 mil atendimentos apenas no primeiro semestre de 2024, quase o dobro do mesmo período do ano anterior. A demanda por serviços de média e alta complexidade cresce, mas a oferta de especialidades como hepatologia e gastroenterologia ainda não acompanha essa curva.

O resultado é que pacientes com esteatose hepática que precisariam de acompanhamento regular acabam sem monitoramento adequado. A doença avança sem que ninguém perceba.

O que causa o acúmulo de gordura no fígado

A esteatose hepática ocorre quando mais de 5% do peso do fígado é composto por gordura depositada nas células do órgão. As causas variam, mas podem ser agrupadas em dois grandes blocos: o consumo excessivo de álcool e os fatores metabólicos.

O excesso de peso é, isoladamente, a principal causa da esteatose não alcoólica, sendo responsável por 60% dos casos, conforme dados do Ministério da Saúde. Pessoas com diabetes tipo 2, colesterol alto, triglicerídeos elevados e síndrome metabólica têm risco significativamente maior de desenvolver gordura no fígado.

Mas o cenário não se limita a quem está acima do peso. Pessoas magras, sem alteração aparente de colesterol ou glicemia, também podem desenvolver a condição. O sedentarismo e a alimentação rica em açúcar e gordura saturada são gatilhos que independem da balança.

No Tocantins, assim como em boa parte do interior do Brasil, a dieta baseada em frituras, carne vermelha em excesso, refrigerantes e alimentos ultraprocessados é realidade cotidiana. Somada à baixa taxa de prática regular de atividade física, essa combinação alimenta silenciosamente a epidemia de esteatose.

Dr. Thiago Tredicci, médico especialista em doenças digestivas em Goiânia, destaca que, mulheres merecem atenção especial. O hormônio estrógeno, produzido naturalmente pelo organismo feminino, propicia o acúmulo de gordura no fígado, o que faz da esteatose hepática uma condição ligeiramente mais prevalente entre elas.

Hepatites virais: outro risco que o Tocantins precisa monitorar

Gordura não é a única ameaça ao fígado. As hepatites virais continuam representando risco concreto para a saúde hepática dos brasileiros. O Ministério da Saúde contabilizou mais de 826 mil casos de hepatites virais notificados entre 2000 e 2024. Desses, 41,5% foram hepatite C e 36,6%, hepatite B.

A hepatite D, causada por um vírus que depende da presença do vírus B para se replicar, tem maior incidência justamente na região Norte do país. Isso torna o Tocantins um estado que exige atenção redobrada à testagem e à vacinação contra hepatite B, que é a principal forma de prevenção indireta contra o tipo D.

Em 2024, o Brasil registrou mais de 34 mil novos casos diagnosticados de hepatite viral e cerca de 1.100 mortes diretas associadas à doença, segundo a Agência Brasil. A hepatite C, para a qual ainda não existe vacina, foi responsável por 19.343 desses diagnósticos e 752 óbitos. A infecção pode permanecer silenciosa por décadas e, quando os sintomas surgem, a cirrose ou o câncer de fígado já podem estar instalados.

A boa notícia é que o tratamento para hepatite C oferecido pelo SUS tem taxa de cura superior a 95%, desde que a doença seja identificada a tempo. Testes rápidos para hepatite B e C estão disponíveis nas unidades básicas de saúde.

Toda pessoa com mais de 40 anos deveria fazer o teste ao menos uma vez, especialmente quem passou por transfusões de sangue antes de 1993 ou compartilhou objetos cortantes.

Diagnóstico precoce: o que faz diferença e o que falta

O exame mais acessível para detectar a esteatose hepática é a ultrassonografia abdominal, que pode identificar o acúmulo de gordura no fígado mesmo quando o paciente não apresenta nenhum sintoma. Exames de sangue que medem as enzimas hepáticas (TGO e TGP) também ajudam a detectar inflamação.

Para casos que exigem avaliação mais detalhada, a elastografia transitória, método semelhante à ultrassonografia que mede a elasticidade do tecido hepático, é considerada o exame mais preciso. Ela permite estimar o grau de fibrose sem a necessidade de biópsia, um procedimento invasivo e desconfortável.

O problema é que nem a elastografia nem o acompanhamento especializado em hepatologia estão amplamente disponíveis na rede pública fora dos grandes centros.

Para um morador de Xambioá, Wanderlândia ou Babaçulândia que precisa investigar uma alteração hepática, a jornada até um consultório especializado em Araguaína ou Palmas pode significar horas de estrada, perda de dia de trabalho e custo de deslocamento que muitos não conseguem arcar.

Essa barreira de acesso transforma o que seria um diagnóstico simples em um diagnóstico tardio. E, no caso das doenças hepáticas, tempo perdido é tecido hepático perdido.

A doença tem tratamento, mas ele começa pela mudança de hábitos

Não existe, até o momento, medicamento específico aprovado para reverter a esteatose hepática. O tratamento mais eficaz é a mudança de estilo de vida. Estudos mostram que a perda de 5% a 10% do peso corporal pode reduzir significativamente a gordura acumulada no fígado e, em muitos casos, reverter a inflamação.

As orientações médicas são diretas: alimentação equilibrada, com redução de ultraprocessados, açúcar e gordura saturada; prática regular de atividade física, com pelo menos 150 minutos semanais de exercício moderado; eliminação ou redução drástica do consumo de álcool; e controle rigoroso de comorbidades como diabetes e hipertensão.

Para quem já tem fibrose instalada, o acompanhamento periódico de um médico da área digestiva é indispensável. A evolução para cirrose reduz drasticamente as opções de tratamento e coloca o paciente em fila de transplante, um procedimento complexo, caro e com disponibilidade limitada no país.

Pesquisadores do Instituto Karolinska, da Suécia, publicaram no The Journal of Hepatology que pessoas com esteatose hepática têm risco de morte quase 1,85 vez maior do que indivíduos sem a condição.

Esse risco não se restringe ao fígado: inclui doenças cardiovasculares e cânceres em outros órgãos. A gordura no fígado, portanto, é um marcador de risco sistêmico que vai além do próprio órgão.

O que a região de Araguaína pode fazer a partir de agora

Araguaína se consolidou como polo regional de saúde, com hospitais que atendem pacientes de pelo menos três estados. A construção do Hospital Geral de Araguaína (HGA) e a ampliação do Hospital Regional são sinais de que o investimento público reconhece a importância estratégica da cidade para o norte do Tocantins.

Mas a infraestrutura hospitalar, por si só, não resolve o problema das doenças hepáticas. O enfrentamento passa por três frentes simultâneas: ampliar a oferta de exames de rastreamento na atenção básica, garantir que as unidades de saúde da família incluam a avaliação hepática na rotina de pacientes com fatores de risco, e investir em educação em saúde que ajude a população a entender que a gordura no fígado não é um problema menor.

A Sociedade Brasileira de Hepatologia recomenda que toda pessoa com obesidade, diabetes tipo 2 ou síndrome metabólica faça avaliação hepática periódica. No Tocantins, onde a distância entre o paciente e o especialista é um obstáculo concreto, a atenção primária precisa assumir o papel de primeira linha na detecção.

O fígado não dói enquanto adoece. Quando a dor chega, o tempo de agir com simplicidade já passou. Para quem mora no interior do Tocantins, onde o acesso a especialistas é limitado, a informação e o exame de rotina são, por enquanto, as melhores ferramentas de proteção.