Em 2024, mais de 172 mil trabalhadores brasileiros precisaram se afastar de suas atividades por causa de hérnia de disco, conforme levantamento do Ministério da Previdência Social.
O número coloca a doença entre as duas principais causas de concessão de benefícios por incapacidade temporária no país, ao lado da dorsalgia. Somados, os problemas de coluna responderam por mais de 377 mil afastamentos apenas no último ano, um crescimento de 39% em relação a 2023.
Dados do IBGE apontam que cerca de 5,4 milhões de brasileiros convivem com a doença. A Organização Mundial da Saúde estima que 80% da população mundial terá ao menos um episódio de dor intensa na coluna ao longo da vida.
A hérnia discal é uma das causas mais frequentes dessas dores e, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, problemas crônicos de coluna atingem 23,4% dos adultos no Brasil.
Os números revelam um problema de saúde pública que vai além do consultório médico. Em muitos casos, o paciente demora meses ou até anos para procurar avaliação especializada, e o atraso no diagnóstico transforma uma situação tratável em uma condição incapacitante.
O que acontece quando o disco intervertebral se rompe
A coluna vertebral é formada por vértebras separadas por discos que funcionam como amortecedores naturais. Cada disco possui uma estrutura externa mais resistente, chamada anel fibroso, e um núcleo gelatinoso interno, o núcleo pulposo. A hérnia ocorre quando esse núcleo extravasa por fissuras no anel e comprime raízes nervosas ou a medula espinhal.
Os sintomas variam conforme a região da coluna afetada. Hérnias lombares, as mais comuns, costumam provocar dor irradiada para as pernas, formigamento, perda de força muscular e, nos casos graves, dificuldade para caminhar. Hérnias cervicais geram sintomas semelhantes nos braços e nas mãos.
Dr. Aurélio Arantes, ortopedista de coluna especialista em hérnia de disco em Goiânia, observa que há também pacientes assintomáticos: entre 30% e 40% das pessoas acima de 30 anos podem apresentar alterações discais em exames de imagem sem sentir qualquer incômodo.
O problema atinge com mais frequência adultos entre 30 e 50 anos, faixa etária em que a maioria está em plena atividade profissional. A média de idade para o primeiro episódio de dor grave é de aproximadamente 37 anos, mas estudos recentes indicam que essa média vem caindo, chegando a 30 anos em alguns levantamentos.
Por que o diagnóstico demora tanto
A principal armadilha da hérnia de disco é a intermitência dos sintomas. A dor aparece, o paciente toma um analgésico, melhora temporariamente e volta à rotina. Sem uma avaliação clínica adequada, esse ciclo pode se repetir por anos.
Segundo dados do Hospital Santa Lúcia, em 76% dos casos de primeira crise intensa existe um histórico de dor lombar sentido por pelo menos uma década antes do diagnóstico definitivo.
O problema se agrava em regiões onde a oferta de especialistas em coluna é limitada. Moradores de cidades do interior, especialmente no Norte e no Nordeste, enfrentam longas filas no sistema público e nem sempre encontram profissionais com formação específica em doenças da coluna vertebral.
Araguaína, segunda maior cidade do Tocantins e polo regional de saúde para cerca de 1,7 milhão de pessoas entre o norte tocantinense, o sul do Maranhão e o sudeste do Pará, conhece bem essa realidade.
A cidade possui hospitais de referência, como o HDT-UFT, e foi escolhida pelo Ministério da Saúde em janeiro de 2026 para sediar a diplomação estadual do programa Mais Saúde com Agente, reforçando seu papel estratégico na rede pública.
Ainda assim, a demanda por especialidades como ortopedia da coluna supera a capacidade de atendimento local, e muitos pacientes precisam buscar centros especializados em outras capitais.
Os casos em que a cirurgia se torna necessária
A boa notícia é que cerca de 90% dos pacientes com hérnia de disco respondem bem ao tratamento conservador. Fisioterapia, medicamentos analgésicos, anti-inflamatórios e reabilitação muscular são suficientes na maioria dos casos.
O Ministério da Saúde aponta que, com acompanhamento correto, cerca de 90% dos portadores conseguem retomar suas rotinas em aproximadamente um mês.
Os outros 10%, porém, precisam de intervenção cirúrgica. E é justamente nesse grupo que o diagnóstico tardio cobra seu preço mais alto. Quando o paciente adia a avaliação especializada por tempo demais, a compressão nervosa prolongada pode causar danos permanentes, como perda de força nos membros e alterações na sensibilidade que nem sempre são revertidas mesmo após a operação.
Um estudo publicado no New England Journal of Medicine reforça esse ponto: pacientes que não apresentam melhora com tratamento conservador devem ser operados em até seis meses após o início dos sintomas para que os objetivos de alívio da dor, retorno ao trabalho e recuperação funcional sejam atingidos de forma satisfatória. Passar desse período reduz as chances de recuperação completa.
É nesse cenário que entender o que envolve uma cirurgia de hérnia de disco se torna relevante para o paciente. A decisão cirúrgica depende de critérios objetivos, como a presença de déficit neurológico progressivo, dor incapacitante que não responde ao tratamento clínico ou compressão grave confirmada por ressonância magnética.
Conhecer esses critérios ajuda o paciente a participar da decisão de forma informada, em vez de simplesmente adiá-la por medo ou falta de orientação.
Como a tecnologia mudou o tratamento cirúrgico da coluna
Nas últimas duas décadas, as técnicas cirúrgicas para hérnia de disco passaram por transformações profundas. A cirurgia aberta tradicional, que exigia incisões grandes, afastamento extenso da musculatura e semanas de internação, deu lugar a procedimentos minimamente invasivos que utilizam câmeras de alta resolução, instrumentos milimétricos e navegação por imagem computadorizada.
A cirurgia endoscópica da coluna, por exemplo, remove o fragmento de hérnia por um portal único, preservando músculos e ligamentos ao redor. O resultado é menos dor no pós-operatório, menor risco de infecção, alta hospitalar precoce e retorno mais rápido às atividades cotidianas. A técnica está no rol de procedimentos da ANS desde 2021, com cobertura obrigatória para convênios e seguros de saúde.
Goiânia consolidou ao longo dos anos um polo de referência em ortopedia e cirurgia da coluna, com profissionais formados por instituições como a Universidade Federal de Goiás e o Hospital das Clínicas da UFG.
A proximidade geográfica com o Tocantins faz da capital goiana um destino frequente para pacientes da região Norte que precisam de procedimentos mais complexos.
O que avaliar ao procurar um especialista em coluna
Nem todo ortopedista tem formação específica em coluna vertebral. A ortopedia é uma especialidade ampla, dividida em subespecialidades como joelho, ombro, mão, quadril e coluna. Cada uma dessas áreas exige treinamento adicional após a residência médica, e a diferença na condução do tratamento pode ser significativa.
Ao buscar ortopedistas especialistas em coluna, o paciente deve verificar se o profissional possui título de especialista reconhecido pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), se é membro da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC) e qual o volume de cirurgias realizadas. A experiência cirúrgica acumulada é um dos indicadores mais confiáveis de resultado, tanto na literatura médica quanto na prática clínica.
Outro ponto que faz diferença é a estrutura disponível para o procedimento. Hospitais com centro cirúrgico equipado com navegação computadorizada e monitorização neurofisiológica oferecem maior segurança ao paciente, especialmente em cirurgias que envolvem descompressão neural ou estabilização vertebral.
A busca por referências confiáveis
Para moradores de Araguaína e de outras cidades do norte do Tocantins, a busca por tratamento especializado de coluna muitas vezes exige deslocamento. A decisão sobre onde e com quem tratar não deve ser apressada.
Uma segunda opinião médica é recomendada em qualquer caso cirúrgico, e comparar a formação e a experiência de diferentes profissionais faz parte de um processo responsável de escolha.
Guias independentes que reúnem os melhores especialistas em cirurgia de coluna por cidade ajudam nessa etapa. Eles permitem que o paciente compare critérios como formação acadêmica, volume de procedimentos, técnicas utilizadas e avaliações de outros pacientes antes de tomar a decisão.
Goiânia, que abriga centros especializados com equipes multidisciplinares e tecnologia de última geração, aparece como uma opção viável para pacientes do Tocantins.
A distância entre Araguaína e a capital goiana é de pouco mais de 1.100 quilômetros pela BR-153, mas a existência de voos e o acesso rodoviário direto pela Belém-Brasília tornam o deslocamento uma alternativa concreta para quem precisa de tratamento que não encontra na rede local.
O peso econômico da coluna que não é tratada
Os mais de 172 mil afastamentos por hérnia de disco registrados em 2024 não representam apenas um problema médico. Cada afastamento gera custos diretos para o sistema previdenciário e custos indiretos para as empresas, que precisam substituir o trabalhador ausente, arcar com encargos e absorver a queda de produtividade.
Já em 2023, a hérnia de disco havia liderado o ranking de concessões de auxílio por incapacidade temporária, com 51,4 mil benefícios concedidos. A doença também figura entre as principais causas de aposentadoria por invalidez no país, segundo dados do próprio INSS.
Quando se somam os custos previdenciários, hospitalares e a perda de produtividade, a conta ultrapassa as centenas de bilhões de reais por ano.
Para o trabalhador individual, o impacto é ainda mais direto. O afastamento prolongado compromete a renda, dificulta a recolocação profissional e, em muitos casos, obriga uma mudança completa de atividade.
Conforme ortopedistas do COE, centro ortopédico sediado em Goiânia, motoristas, operadores de máquinas, trabalhadores da construção civil e profissionais de saúde estão entre os mais afetados, por exercerem funções que exigem esforço físico repetitivo ou postura inadequada por longos períodos.
Prevenção começa pelo que se faz todos os dias
A maior parte dos fatores de risco para hérnia de disco está ligada ao estilo de vida. Sedentarismo, obesidade, tabagismo, postura inadequada no trabalho e esforços repetitivos sem preparo físico adequado são os vilões mais comuns. O envelhecimento natural dos discos intervertebrais agrava o quadro, mas não é o único responsável.
Manter uma musculatura lombar e abdominal forte é a primeira linha de defesa contra lesões discais. Exercícios regulares, alongamentos diários e ergonomia no ambiente de trabalho reduzem de forma significativa o risco de desenvolver a doença.
Para quem já teve um episódio de dor, a reabilitação física orientada por profissional qualificado é a melhor forma de evitar recorrências.
A informação também é uma forma de prevenção. Reconhecer os sinais de alerta, como dor persistente por mais de duas semanas, formigamento nos membros ou perda de força, e procurar avaliação médica sem esperar meses, pode ser a diferença entre um tratamento simples e uma cirurgia de urgência.



