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Lesão de menisco pode deixar sequelas no joelho de praticantes amadores

Problema atinge cerca de 60 a cada 100 mil pessoas por ano, e moradores de regiões distantes dos grandes centros enfrentam dificuldade adicional para encontrar avaliação especializada

Ortopedista especialista em joelho durante avaliação clínica; diagnóstico precoce é fundamental para evitar o agravamento de lesões meniscais
Foto: Freepik

O professor de educação física Carlos Eduardo Martins, de 34 anos, jogava futebol com amigos em um campo de terra batida na periferia de Araguaína quando sentiu um estalo seco no joelho direito. Era uma noite de quinta-feira, o tipo de rachão que acontece em milhares de campos pelo Brasil. Ele mancou até o banco, colocou gelo, esperou.

Duas semanas depois, ainda com dor, procurou um clínico geral, que pediu um raio-X. O exame não mostrou fratura. "Deve ser uma torção", ouviu. Só que a dor não cedeu por meses.

Quando finalmente fez uma ressonância magnética, o laudo revelou ruptura do menisco medial. O atraso no diagnóstico já havia provocado desgaste adicional na cartilagem.

Histórias como essa se repetem em consultórios por todo o país, mas são mais frequentes em cidades do interior e em regiões onde o acesso a médicos especializados em joelho é limitado.

O norte do Tocantins, apesar de contar com Araguaína como polo regional de saúde, ainda depende de centros maiores para procedimentos ortopédicos de alta complexidade. E quando o paciente demora para chegar ao especialista certo, o problema no menisco pode se transformar em algo muito mais grave.

A estimativa clínica é de que aproximadamente 60 em cada 100 mil pessoas sofram algum tipo de lesão meniscal por ano, conforme levantamentos publicados em periódicos médicos internacionais. No Brasil, o futebol é disparado a principal causa.

Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) acompanhou 240 atletas amadores e profissionais com lesões no joelho e concluiu que o futebol foi responsável pela maior parte dos casos, independentemente do tipo de lesão.

Jogadores de futebol apresentaram 0,448 lesão meniscal a cada mil horas de jogo. Em um país onde o esporte amador acontece sem qualquer acompanhamento médico, esses números ganham um peso extra.

O menisco e o preço da demora

Os meniscos são duas estruturas de fibrocartilagem localizadas entre o fêmur e a tíbia, no interior do joelho. Funcionam como amortecedores: absorvem e distribuem entre 50% e 85% das cargas compressivas que atravessam a articulação durante a caminhada, a corrida e o salto.

Quando um deles se rompe, o paciente costuma sentir dor localizada, inchaço, estalos e, em alguns casos, travamento do joelho, uma sensação de que a articulação bloqueia no meio do movimento.

Nem toda lesão de menisco exige cirurgia. Em muitos casos, o tratamento conservador com fisioterapia, fortalecimento muscular e repouso é suficiente. O problema acontece quando o diagnóstico demora e o paciente continua forçando a articulação sem saber que tem uma ruptura.

A cada semana de uso do joelho lesionado sem orientação, a chance de o menisco agravar o desgaste da cartilagem articular aumenta. A literatura médica aponta que mais de 75% dos pacientes diagnosticados com osteoartrite no joelho sofreram alguma lesão meniscal anterior.

Como destaca Dr. Ulbiramar Correia, especialista em cirurgia minimamente invasiva no joelho com atuação na capital goiana, a relação entre as duas condições é de mão dupla: a lesão de menisco pode acelerar a artrose, e a artrose pode enfraquecer o menisco e provocar novas rupturas.

Quando esse ciclo se instala, a recuperação é mais longa, mais cara e, em alguns casos, exige procedimentos que poderiam ter sido evitados com uma avaliação precoce.

Esporte amador sem estrutura de saúde

O futebol amador no Brasil não tem protocolo de prevenção, aquecimento padronizado nem acompanhamento fisioterapêutico. Em cidades do interior do Tocantins, no sul do Maranhão e no sudeste do Pará, os campos de pelada são o principal espaço de lazer de homens entre 25 e 45 anos.

As partidas acontecem em terrenos irregulares, sem iluminação adequada e, na maior parte das vezes, com jogadores que passaram o dia inteiro em pé, no trabalho braçal ou sentados em escritórios. Essa combinação de fatores explica por que o atleta amador está mais exposto a lesões de menisco do que se imagina.

A pesquisa da Unifesp mostrou que as mulheres apresentaram risco maior de lesão meniscal por hora de jogo, o que contraria a percepção comum de que apenas homens sofrem com esse problema. Corrida, vôlei e academia também apareceram como modalidades de risco crescente para lesões do joelho.

O dado que mais preocupa os ortopedistas, porém, não é a incidência das lesões. É o tempo que o paciente leva entre o primeiro sintoma e a consulta com um médico especializado em joelho.

Em capitais como São Paulo e Goiânia, onde há concentração de profissionais com formação específica, o caminho até o diagnóstico é mais curto. Em regiões como o norte do Tocantins, o paciente costuma passar por clínicos gerais e ortopedistas generalistas antes de conseguir uma avaliação direcionada. Esse percurso pode levar meses.

A diferença entre o ortopedista geral e o especialista em joelho

A ortopedia é uma especialidade ampla. Dentro dela, existem subespecialidades dedicadas a regiões específicas do corpo: coluna, ombro, quadril, mão, pé e joelho.

O médico que trata exclusivamente de joelho acumula volume cirúrgico e experiência clínica que permitem diferenciar uma lesão de menisco estável (que pode ser tratada sem cirurgia) de uma lesão instável (que exige intervenção para evitar dano progressivo). Essa distinção importa mais do que parece.

Estudos europeus coordenados pela Sociedade Europeia de Traumatologia Esportiva, Cirurgia de Joelho e Artroscopia (ESSKA) demonstraram que o diagnóstico preciso do tipo de lesão meniscal é o que define a conduta correta.

Lesões horizontais em pacientes acima de 40 anos, por exemplo, costumam ser degenerativas e respondem melhor ao tratamento conservador. Já lesões longitudinais ou em alça de balde, que deslocam fragmentos do menisco e travam a articulação, geralmente precisam de reparo cirúrgico. Confundir uma com a outra pode levar a procedimentos desnecessários ou à perda de tecido meniscal que poderia ser preservado.

Para quem mora no norte do Tocantins ou em cidades do entorno, a referência em ortopedia especializada está em Goiânia. A capital goiana se consolidou como polo de turismo de saúde: dados do Censo Hoteleiro de 2022 revelaram que 57% dos turistas que visitam Goiânia o fazem em busca de tratamentos médicos.

Na ortopedia, a cidade reúne profissionais com formação em centros nacionais e internacionais de referência, atuando em subespecialidades que antes exigiam deslocamento a São Paulo.

Conforme os melhores médicos de joelhos em Goiânia, a avaliação especializada precoce é o que separa o paciente que consegue tratar o menisco de forma conservadora daquele que precisa de cirurgia.

O ortopedista de joelho trabalha com critérios objetivos: localização da lesão, tipo de ruptura, presença ou ausência de sintomas mecânicos e grau de comprometimento da cartilagem. Sem essa avaliação, o paciente corre o risco de tratar o sintoma sem resolver a causa.

Quando a cirurgia é necessária

A decisão entre tratamento conservador e cirúrgico depende de vários fatores. A idade do paciente, o nível de atividade física, o tipo de lesão e a presença de lesões associadas, como ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA), são os principais critérios.

Dados da Unifesp indicam que, entre os atletas avaliados, 30,2% tinham lesão combinada de LCA e menisco. O cruzamento dessas duas lesões é comum no futebol e no futsal, onde os movimentos de rotação com o pé fixo no chão impõem carga extrema sobre a articulação.

Quando ambos estão comprometidos, a reconstrução ligamentar geralmente é acompanhada pelo reparo ou pela remoção parcial do menisco lesionado.

A remoção de menisco, mesmo que parcial, tem consequências. Estudos biomecânicos mostram que retirar 30% do menisco pode triplicar a pressão de contato sobre a cartilagem articular. Por isso, a tendência da ortopedia moderna é preservar o máximo de tecido meniscal possível.

cirurgia minimamente invasiva no joelho permite que o cirurgião repare a lesão por artroscopia, com incisões pequenas e recuperação mais rápida do que nos procedimentos abertos tradicionais. Em pacientes jovens e fisicamente ativos, a preferência é pelo reparo do menisco, não pela remoção.

No pós-pandemia, o volume de cirurgias ortopédicas no joelho cresceu de forma expressiva no Brasil. Segundo dados do DATASUS, as artroplastias de joelho aumentaram 52% no período.

Parte desse crescimento reflete a demanda represada de pacientes que adiaram consultas e cirurgias durante os anos de restrição sanitária, mas também revela um contingente de pessoas que conviveu com dor no joelho por tempo demais e chegou ao consultório com quadros já avançados.

Araguaína como polo de saúde e a rota até o especialista

Araguaína é a segunda maior cidade do Tocantins e funciona como referência em saúde para o norte do estado, alcançando um raio de mais de 300 quilômetros que inclui municípios do Pará e do Maranhão.

O Hospital de Doenças Tropicais da UFT é reconhecido nacionalmente, e a cidade sedia cinco universidades, entre elas instituições com cursos de Medicina e áreas correlatas.

Na ortopedia de alta complexidade, porém, os pacientes de Araguaína e região ainda precisam buscar centros maiores. Goiânia está a 384 quilômetros e concentra clínicas especializadas por subespecialidade.

Para o morador do norte do Tocantins que sente dor no joelho há semanas e não encontra resposta local satisfatória, o deslocamento até um ortopedista de joelho pode ser o passo que falta para evitar uma cirurgia mais complexa no futuro.

O caminho ideal seria fazer a avaliação inicial em Araguaína, com exame clínico e ressonância magnética, e levar os resultados a um especialista em joelho para definição de conduta.

Essa sequência evita viagens desnecessárias e garante que o tempo entre o primeiro sintoma e o tratamento correto seja o menor possível.

Os sinais que o paciente não deve ignorar

Algumas situações exigem avaliação ortopédica especializada com urgência. O travamento do joelho durante a flexão ou extensão é uma delas.

Quando o paciente tenta dobrar ou esticar a perna e a articulação bloqueia, há grande probabilidade de que um fragmento do menisco tenha se deslocado. Esse quadro, chamado de lesão em alça de balde, geralmente requer cirurgia.

Conforme pontua a equipe de profissionais do COE, centro de ortopedia especializada com atuação em Goiânia, outros sinais de alerta incluem dor persistente na linha articular do joelho (a faixa entre o fêmur e a tíbia), inchaço que volta após atividades leves e sensação de instabilidade ao caminhar em terreno irregular ou ao descer escadas. A dor que aparece ao agachar também é um indicador frequente de lesão meniscal, especialmente quando é acompanhada de estalo.

A prevalência de lesões meniscais aumenta com a idade. Em pessoas entre 50 e 59 anos, cerca de 25% apresentam algum grau de lesão nos exames de imagem. Na faixa de 60 a 69 anos, esse número sobe para 35%.

Entre pacientes com osteoartrite instalada, a presença de lesão meniscal chega a 75% ou mais. Isso não significa que toda lesão encontrada na ressonância precise de tratamento cirúrgico, mas reforça a importância de acompanhamento com um médico que conheça as nuances da articulação.

O que está em jogo

A lesão de menisco, quando tratada no momento certo, tem prognóstico favorável. Próteses de joelho atuais duram mais de 20 anos em 90% dos casos, mas a melhor prótese é aquela que nunca precisou ser colocada. Preservar o menisco significa preservar a cartilagem, e preservar a cartilagem significa adiar ou evitar a necessidade de substituição articular.

Para o atleta amador de Araguaína que sente dor no joelho desde o rachão de semanas atrás, o recado dos ortopedistas é claro: procurar um especialista não é exagero. É o que separa um tratamento simples de uma cirurgia que poderia ter sido evitada.