Uma funcionária da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Araguaína procurou a reportagem do Araguaína Notícias para denunciar a situação classificada por ela como “insustentável” dentro da unidade. Com medo de represálias, a profissional pediu para não ser identificada, mas afirma que a realidade de quem trabalha no local é marcada por superlotação, falta de funcionários, estrutura precária e salários atrasados.
“É revoltante o descaso que enfrentamos diariamente. Trabalhamos em meio à superlotação, com equipe insuficiente, tentando oferecer cuidado em condições que beiram o desumano e que são extremamente prejudiciais, tanto para os profissionais quanto para os pacientes”, desabafa.
Superlotação e estrutura inadequada
Segundo a profissional, a UPA está operando muito acima da capacidade, com todos os setores lotados e pacientes em estado grave sendo mantidos em espaços sem a estrutura mínima necessária.
“A estrutura da unidade não comporta a quantidade de atendimentos atuais. Todos os setores permanecem lotados, com pacientes em estado grave sendo mantidos em locais inadequados”, relata.
Ela afirma que a equipe faz o possível para atender a população, mas que a falta de profissionais e de recursos compromete diretamente a segurança dos atendimentos.
“Cada plantão se transforma em uma batalha entre fazer o possível com as condições que nos são dadas e lidar com o medo constante de que algo pior aconteça por pura falta de recursos. O risco de erros aumenta, e todos saem prejudicados: o paciente perde, e o profissional também.”
Profissionais exaustos e adoecendo
Outro ponto destacado no relato é o impacto direto da situação na saúde física e emocional dos trabalhadores da unidade.
“Nós, profissionais, estamos adoecendo junto com os pacientes. O cansaço extremo, a ansiedade, a insônia e a sensação de impotência são visíveis.”
De acordo com a servidora, há colegas que continuam trabalhando mesmo doentes, por receio de que a situação se agrave ainda mais com a ausência de profissionais nos plantões.
“Há colegas trabalhando doentes, física e emocionalmente, porque sabem que, se faltarem, a situação se torna ainda pior.”
Salários atrasados
Além das dificuldades estruturais e da sobrecarga de trabalho, a denunciante afirma que parte dos trabalhadores enfrenta atrasos salariais, sem qualquer explicação por parte da empresa responsável pela gestão da unidade.
“Trabalhamos sob pressão extrema, lidando com vidas, sem sequer a segurança de receber pelo nosso próprio trabalho. Esse silêncio só reforça o sentimento de abandono e desrespeito.”
“Não somos vilões”, diz servidora
A profissional também fez um apelo à população, pedindo compreensão e apoio diante da realidade enfrentada diariamente pelos trabalhadores da saúde.
“Muitas vezes somos vistos e tratados como vilões, quando, na verdade, somos nós que estamos na linha de frente, sofrendo e sentindo tudo isso diariamente. Não queremos aplausos. Queremos condições dignas e seguras de trabalho e o cumprimento básico das obrigações trabalhistas.”
Ela critica ainda discursos que responsabilizam os profissionais pela situação.
“Não precisamos ouvir que ‘se está ruim é só pedir demissão’. Precisamos que a população nos ajude denunciando, cobrando e fiscalizando os órgãos responsáveis.”
Segundo a trabalhadora, a saída de profissionais não resolve o problema estrutural.
“Pedir demissão não resolve o problema. Outro profissional entra, a situação continua a mesma, e o ciclo se repete.”
Críticas à gestão
A colaboradora também critica discursos institucionais que, segundo ela, não refletem a realidade enfrentada na unidade.
“Para a gestão, é fácil publicar notas dizendo que a equipe trabalha de forma incansável. Não são eles que estão na linha de frente. A equipe está exausta, desmotivada e, ainda assim, segue tentando oferecer o melhor atendimento possível dentro de condições extremamente limitadas.”
Pedido de providências
Por fim, a trabalhadora afirma esperar que providências sejam tomadas antes que a situação resulte em consequências ainda mais graves.
“De nada adianta iniciar o mês com campanhas como o Janeiro Branco, falando sobre saúde mental, se na prática nada é feito para proteger quem está adoecendo todos os dias. Estamos esgotados, física e mentalmente. Só esperamos que essa realidade mude, antes que as consequências sejam ainda mais graves”, finaliza.
Atraso de salário PAI
Além das denúncias envolvendo a UPA, a reportagem também recebeu relato de trabalhadores do Pronto Atendimento Infantil (PAI), denunciando atraso de salário. A funcionária também pediu para preservar sua identidade.
“Gostaríamos de manifestar nossa insatisfação em relação ao atraso no pagamento, sem qualquer posicionamento ou esclarecimento por parte da empresa. O salário não é um favor, é um direito do trabalhador, e o silêncio diante dessa situação demonstra falta de respeito e responsabilidade com todos que cumprem suas obrigações diariamente".
O que diz o ISAC
A reportagem do Araguaína Notícias procurou o Instituto Saúde e Cidadania (ISAC), responsável pela gestão da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Araguaína, e questionou sobre as denúncias de superlotação, falta de profissionais, atraso salarial e condições de trabalho relatadas pela denunciante. O instituto afirmou que realiza pagamentos conforme repasses públicos e que a UPA trabalha com número de profissionais correspondente ao porte da unidade.
Confira a íntegra da nota:
Aos questionamentos apresentados pelo Portal Araguaína Notícias, o Instituto Saúde e Cidadania, na condição de Organização Social responsável pela gestão de recursos públicos nas unidades do PAI, HMA, UPA e AME, esclarece que realiza o fluxo financeiro em conformidade com os repasses públicos e que, quando há atrasos, a programação sofre impacto direto, sendo normalizada quando o repasse da verba acontece.
A Direção da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Dr. Anatólio Dias Carneiro informa que trabalha com o quantitativo de profissionais correspondente ao porte da unidade, em conformidade com o que preconiza o Ministério da Saúde.
Ressalta ainda que, como toda unidade de urgência e emergência, a UPA está sujeita às sazonalidades que ocorrem todos os anos, com aumento na circulação de determinados vírus.
Esses cenários exigem o acionamento de planos de contingência já estruturados, com o objetivo de mitigar aumentos pontuais no fluxo de pacientes e melhorar a dinâmica e a celeridade do atendimento.
O ISAC assegura ainda que todos os profissionais vinculados à UPA são amparados por todos os direitos exigidos pelos respectivos conselhos.


